sábado, 2 de novembro de 2013

O bispo Ambrosio desafia a imperatriz

Os soldados cercaram a catedral de Milão. O bispo Ambrosio recebeu ordens da imperatriz Justina para abdicar do controle do prédio, mas ele não se moveu. A guarda germânica do imperador preparou-se para executar as ordens da imperatriz. A guarda não apenas tinha grande lealdade à imperatriz, mas os germanos, provavelmente, eram também arianos, ao passo que o bispo seguia os ensinamentos ortodoxos do Concilio de Nicéia.
Muitos esperavam o massacre dos infiéis reunidos na catedral, mas os observadores ouviram o som de salmos ecoando pelo ar. A força imperial deparou com uma fé inabalável.
O homem em quem esse conflito estava centralizado — o bispo Ambrosio — era um dos líderes mais fortes que a igreja já conhecera. O jovem Ambrosio, filho de um dos mais altos oficiais do governo de Constantino, fora criado para seguir os passos de seu pai. Quando terminou seus estudos em Direito, foi nomeado governador do território em volta da cidade de Milão. Muitos o consideravam um líder justo e altamente capaz.
Na época em que Ambrosio ocupava a posição de governador, um ariano chamado Auxêncio ocupou a posição de bispo de Milão. O bispo morreu em 374, e um grande tumulto se levantou enquanto a igreja tentava escolher o sucessor. Devido ao seu papel governamental, Ambrosio foi até lá para abrandar a contenda.
De repente, alguém começou a gritar: 'Ambrosio para bispo!". O restante das pessoas se juntou ao coro.
O único problema era que Ambrosio nem sequer fora batizado. Embora já acreditasse em Cristo havia bastante tempo, continuava um iniciante na fé. Mas isso não tinha a menor importância. A aclamação popular fez com que, em somente oito dias, ele fosse consagrado o novo bispo de Milão, queimando as diversas etapas — o batismo e muitos cargos intermediários — que eram requeridas para alcançar esse cargo.
O arianismo perdera seu poder. O último imperador do Oriente a defender essa causa foi Valente, morto em 378. Graciano, imperador do Ocidente, indicou o general Teodósio para governar a metade oriental do império, a partir de Constantinopla. Em 380, os dois imperadores promulgaram um édito declarando o cristianismo niceno a religião de todo o reino. Isso terminou por destruir a seita ariana, exceto em algumas terras distantes, entre os godos e entre alguns membros da família imperial.
Ambrosio levou bastante a sério sua nova posição como bispo. Estudou as Escrituras, assim como os pais da igreja, com intensidade, e começou a pregar todos os domingos. Ele sempre fora um grande orador e agora seu discurso tinha ainda mais profundidade. Basilio de Cesaréia, um de seus contemporâneos, descreveu Ambrosio como "um homem notável por seu intelecto, por sua linhagem ilustre e por sua notoriedade na vida e no dom da palavra, um objeto de admiração de todos neste mundo".
Um de seus admiradores era um escritor de discursos chamado Agostinho. Este jovem cartaginês já pesquisara o maniqueísmo e fora atraído pelos pagaos de Roma. Fora mandado para Milão como professor e retórico do imperador adolescente Valentiniano n. Naqueles dias, o poder imperial estava baseado em Milão, mas o Senado, em Roma, ainda era influente. De maneira geral, os senadores ainda abraçavam os antigos modos pagãos romanos, mas os imperadores eram cristãos. É bem possível que Agostinho tenha sido mandado pelos pagãos do Senado para ajudar a influenciar o jovem imperador.
Por razões políticas, Agostinho tornou-se catecúmeno na igreja cristã. Durante esse processo, entrou em contato com Ambrosio e ficou impressionado com a humildade e o poder do bispo. Mais tarde, por meio do testemunho de um dos ajudantes de Ambrosio, Agostinho se converteu (v. mais detalhes sobre Agostinho no próximo capítulo).
Ambrosio também ficou conhecido como compositor de hinos. Até mesmo no século iv a música na adoração levantava controvérsias. Os críticos temiam que as experiências musicais de Ambrosio criassem mania pelos hinos. Por isso, não é de surpreender que um cântico fosse ouvido durante o cerco da catedral de Milão, naquele dia do ano de 385. É bem possível que uma das cantoras fosse Mônica, a dedicada mãe de Agostinho.
Porém, foi outra mulher que criou o conflito naquele dia. Justina era a mãe do imperador Valentiniano, o sucessor de Graciano como o governador do Império Romano do Ocidente. Ela era o poder por trás do trono. Como ariana, queria reclamar para si a catedral de Ambrosio, assim como outra igreja em Milão, para que pudessem ser usadas pelas congregações arianas. Ambrosio se recusou a ceder a catedral. Ela enviou os soldados. O palco estava preparado para o derramamento de sangue.
No entanto, as tropas se dispersaram. Ninguém sabe o porquê. Alguns acham que Ambrosio pode ter feito com que uma mensagem chegasse até Teodósio, homem fervoroso, não-ariano, que governava o Oriente. Talvez a mensagem para Valentiniano, ameaçando a fúria de Teodósio, tenha feito com que o jovem suprimisse os planos de sua mãe. Ou talvez Justina estivesse simplesmente blefando desde o início. Seja qual for o caso, Ambrosio se posicionou diante da corte imperial e venceu.
Mais tarde, Ambrosio enfrentou um imperador — dessa vez, o próprio Teodósio. O imperador reagiu de forma exagerada a um distúrbio em Tessalônica, enviando o exército para massacrar os cidadãos daquela cidade. Ambrosio considerou isso um ato hediondo e excomungou Teodósio até que o imperador cumprisse penitência. O fato de o imperador voltar à catedral vestido de saco e coberto de cinza e ajoelhar-se diante do bispo buscando perdão é um testemunho tanto da coragem de Ambrosio quanto da humildade de Teodósio.
Houve um tempo em que a igreja enfrentou a perseguição de imperadores. Com Ambrosio, o novo padrão de relacionamento entre a igreja e o Estado começava a se desenvolver.

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