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 OS LIVROS APÓCRIFOS E APOCALÍPTICOS

 I. SIGNIFICADO DA PALAVRA "APÓCRIFO"

 Com o nome de "apócrifos" designamos, normalmente, os livros
 que a Vulgata Latina contém, mas que não estão incluídos no Velho
 Testamento Hebraico. A presença de tais livros na Vulgata, exceção
 feita a 2Ed, deve-se à tradução grega da Septuaginta, fonte da
 versão latina destes livros. Afirma-se, geralmente, que este fato
 demonstra que os judeus de Alexandria versados na língua grega
 lhes deram plena canonicidade, e que a Igreja primitiva adotou
 pura e simplesmente a Bíblia Grega. Nada de certo, porém. Os livros
 em questão são de origem palestiniana, escritos na maior parte
 em hebraico ou aramaico. Embora populares tanto na Palestina como
 na Dispersão, é provável que não estivessem no mesmo plano que
 os outros livros canônicos em todas as regiões. O termo "apócrifo"
 pode, então, significar "estranho" ou "de fora". Mas não se trata
 dum significado rigoroso, pois a palavra grega apocryphos quer
 dizer "escondido" e aplicava-se aos livros que se ocultavam do
 público, para serem consultados apenas por uma classe privilegiada.
 Nada de ultrajante encerra o termo, já que os livros, pelo contrário,
 dispunham de um certo valor, nem por todos compreendido. Parece
 que assim se denominavam as obras dos videntes judeus do século
 II A. C. até ao século I da era cristã, e que, publicados com os
 nomes de heróis e profetas de Israel, se conservaram escondidos
 até àquela altura. Sendo assim, nem todo o público conhecia a existência
 de tais livros. Em 2Ed 14 conta-se como Esdras ditou a cinco
 escribas noventa e quatro livros, vinte e quatro dos quais eram
 os livros do Velho Testamento (os Profetas Menores formavam um
 só livro), e nos setenta restantes "encontravam-se a origem da
 compreensão, a fonte da sabedoria e a torrente da ciência" (2Ed
 14.46-47). Do exposto se infere, que estes livros eram mais conceituados
 que o Velho Testamento, e que os apócrifos eram em muito maior
 número do que os que compreende a atual coleção. Tratava-se talvez
 de livros apocalípticos como o próprio livro 2Ed. Orígenes empregou
 o termo "apócrifo" para designar as obras apocalípticas, enquanto
 considerava a coleção de "apócrifos" como canônica. Seja como for,
 parece que os apócrifos, no sentido de livros estranhos, abrangiam
 em princípio todos os livros sagrados não incluídos no Cânon. Desses,
 uns eram mais populares que outros, e naturalmente os mais populares
 é que chegaram até nós através da Vulgata Latina. Mas os chamados
 "pseudepígrafos" (isto é, livros publicados com o nome dum autor
 antigo) foram considerados também de valor especial, e podemos
 incluí-los no mesmo grupo dos "apócrifos".

 II. OS LIVROS APÓCRIFOS

 a) Os apócrifos propriamente ditos

 O livro 1 de Esdras é uma narração fragmentária dos acontecimentos
 lembrados no livro canônico de Esdras, juntamente com a história
 dos três cortesãos, um dos quais se chama Zorobabel e que teve
 papel preponderante na festa de Dario. O livro 2 de Esdras
 não passa dum apocalipse do primeiro século da era cristã, de certo
 modo o mais trágico de todos os apocalipses. Tobias é uma história
 romântica que nos fala da sepultura dos mortos e do casamento de
 Tobias. Foi escrito provavelmente nos fins do século III A.C. Judite
 é outra obra de ficção a propósito da libertação duma cidade do
 exército assírio. Não vai além da época dos macabeus (cerca de
 150 A. C.). O descanso de Ester é um apêndice ao livro canônico,
 e inclui orações e decretos, que vêm tornar mais explícito o caráter
 religioso do livro. A sabedoria de Salomão é considerado um
 dos livros mais representativos e mais sublimes da sabedoria hebraica,
 do período que decorre entre os dois Testamentos, pois supõe-se
 escrito entre 150 A. C. e o ano 40 da nossa era. O Eclesiástico,
 também chamado "Sabedoria de Jesus, filho de Siraque", é uma obra
 do gênero da anterior, embora se julgue ser da autoria dum saduceu
 e publicada cerca do ano 180 A. C. Baruque forma um livro só
 com A Epístola de Jeremias, datando o primeiro do século III
 A. C. e o segundo do século II A. C. Ambos se destinam a combater
 a heresia. Apêndices ao livro de Daniel conhecem-se três: A história
 de Susana condenada à morte e defendida pelo jovem Daniel; A
 oração de Azarias e o Cântico dos três santos mancebos lançados
 à fornalha ardente; e por fim Bel e o Dragão, duas narrativas
 separadas contando como Daniel desacreditou os sacerdotes de Bel
 e desmascarou o deus-dragão. A oração de Manassés, é um grito
 de arrependimento proferido pelo rei que tem este nome e baseado
 em #2Cr 23.12 e segs., escrito provavelmente no século II A.
 C. O livro 1 Macabeus narra a luta dos judeus, chefiados pelos
 filhos de Matatias, contra Antíoco Epífanes e seus sucessores.
 Há quem suponha que o autor é contemporâneo dos acontecimentos
 que relata. O 2 Macabeus continua o anterior e expõe, num estilo
 primoroso, as façanhas de Judas Macabeu.

 b) Os livros pseudepígrafos

 O mais importante apocalipse deste gênero de obras é, sem dúvida,
 o Livro de Enoque (1 Enoque), embora não se saiba se atribui-lo
 a uma determinada época ou a uma acumulação gradual de tradições
 atribuídas a Enoque entre o ano 200 A. C. e as primeiras décadas
 do século I da nossa era. O certo é que se trata duma obra que
 trouxe uma contribuição especial ao conceito do Messias celeste
 e o Filho do Homem. O Livro dos Jubileus comenta o Gênesis,
 frisando que a Lei foi observada desde os mais remotos tempos e
 dividindo a história em períodos de jubileus, isto é, quarenta
 e nove anos (sete semanas de anos). Data aproximadamente de cerca
 do ano 100 A. C. Os testamentos dos doze patriarcas devem ser
 uma obra contemporânea da anterior, cujo objetivo é apresentar
 os últimos conselhos e profecias de cada um dos doze filhos de
 Jacó, quando moribundos. Os oráculos sibilinos são obras judaicas
 que, à imitação das profecias pagãs de Sibila, pretendem divulgar
 o pensamento hebraico entre os gentios. Não vão além do século
 II A. C. A Assunção de Moisés deve ter sido publicada no tempo
 de Cristo e procura narrar a história do mundo, em forma de profecia,
 desde Moisés até ao tempo do autor. O livro dos Segredos de Enoque
 (2 Enoque) supõe o 1 Enoque e, embora se apresentem outras datas
 posteriores, não deve ir além do ano 50 da nossa era. Descreve
 pormenorizadamente os sete céus e antecipa em mil anos o reinado
 de Deus na terra. O Apocalipse Siríaco de Baruque (2 Baruque)
 depende, sem dúvida, de 2Ed, e há quem pretenda atribuí-lo ao escriba
 de Jeremias. Foi escrito nas últimas décadas do século I da nossa
 era. O Apocalipse Grego de Baruque (3 Baruque), se bem que
 tenha certas afinidades com o anterior, é completamente independente
 e atribui-se-lhe uma data posterior. Os Salmos de Salomão abrangem
 dezoito salmos que no fim de contas são da autoria dum fariseu,
 e remontam à segunda metade do século I da era cristã. O estilo
 não difere do dos salmos canônicos. O 3 Macabeus fala-nos da
 tentativa de massacre dos judeus no reinado de Ptolomeu Filopator
 (222-205 A. C.) e termina com a vingança triunfante do povo escolhido.
 O 4 Macabeus é um tratado filosófico a ilustrar a tese do autor
 no caso dos mártires macabeus. A Carta de Aristeas descreve
 as supostas circunstâncias em que se fez a tradução da Bíblia hebraica
 para o grego. O Martírio de Isaías, como o título sugere, afirma
 que Isaías foi serrado ao meio. Há quem julgue ter sido escrito
 no século I da nossa era, mas é muito provável que a obra que o
 inspirou-A Ascensão de Isaías -seja inteiramente cristã
 e, portanto, muito posterior. Os Livros de Adão e Eva prestam
 inúmeras informações acerca da vida dos nossos primeiros pais e
 supõe-se terem sido publicados no século I da era de Cristo. Pirke
 Aboth, ou "As Sentenças dos Pais" são uma coleção de provérbios
 da autoria de rabis célebres, compilados desde o século III A.
 C. até ao século III da nossa era. A História de Aicar contém
 uma lenda do século V A. C. acerca das aventuras daquele sábio,
 muito em voga naquele tempo. Os fragmentos Zadoquitas, são
 relatos dum partido judaico que teve origem numa separação dos
 saduceus. Datam dos últimos anos A. C. ou dos primeiros da nossa
 era. O Apocalipse de Abraão e o Testamento de Abraão, do
 século I da era cristã, São obras judaicas com passos de literatura
 do Cristianismo. As Vidas dos Profetas, conforme o título,
 são narrações biográficas dos profetas, da mesma data que os dois
 livros anteriores, e do mesmo modo divulgado pelos cristãos. O
 Testamento de Jó, se bem que de somenos importância, supõe-se
 ter sido escrito no século I A. C.

 III. A DOUTRINA DOS LIVROS APÓCRIFOS

 a) A doutrina de Deus

 À medida que o tempo avança, nota-se uma tendência em toda esta
 literatura para se frisar a transcendência de Deus. Parece evidente
 a relutância em mencionar o nome de Deus, para o que se empregam
 diferentes perífrases. Em 1 Macabeus, por exemplo, nunca se fala
 de Deus diretamente, mas em regra alude-se ao "Céu". Vejamos o
 seguinte passo: "A vitória não depende da multidão dos exércitos,
 pois a força vem do Céu". Deste modo compreendemos como é que o
 escritor judeu Mateus usa constantemente no seu Evangelho a expressão
 "reino do Céu" em vez de "reino de Deus", tanto do agrado dos outros
 evangelistas. Os rabis não raro se referem a Deus, com expressões
 como esta: "Vais agora prestar contas ao Rei dos reis, o Único
 Santo, bendito seja Ele" (Pir. Ab. 4.29).

 Pelo mesmo motivo se dá relevo à doutrina dos anjos, para evitar
 a necessidade da intervenção direta de Deus nos destinos do mundo.
 No Velho Testamento o Senhor é um "guerreiro" que luta ao lado
 de Israel. Em 2 Macabeus são os anjos que desempenham esse papel.
 Mas em 1 Macabeus nem Deus nem os anjos. É Judas em pessoa quem
 leva de vencida os poderosos inimigos, a salientar que não se exige
 uma intervenção direta de Deus, sobretudo em assuntos deste gênero.
 Do mesmo modo o contato direto de Deus com a criação no Velho Testamento
 é substituído por multidões de anjos, que se ocupam de todos os
 fenômenos da Natureza: da chuva, da neve, da luz, das trevas, etc.
 Por outro lado, naturalmente evoluiu também a doutrina dos demônios
 embora as causas sejam diferentes.

 Não admira, pois, que se desenvolvesse extraordinariamente a
 doutrina da soberania de Deus. A consumação não só foi prevista,
 mas determinada com precisão. Os indivíduos participam deste processo
 de predestinação, mas sem qualquer prejuízo da sua liberdade. O
 autor dos Salmos de Salomão acreditava na absoluta soberania de
 Deus sobre o homem, mas não deixava de exclamar: "As nossas obras
 estão sujeitas à nossa alternativa e o poder de fazer o bem ou
 o mal estão nas obras das nossas mãos" (9.7). Do mesmo modo a transcendência
 de Deus não exclui completamente as Suas relações com os homens,
 e admite-se com freqüência a Paternidade divina. A frase: "O teu
 Pai que está no Céu" aparece em Pir. Ab. 5.23. Repare-se ainda
 nesta outra: "O Senhor alegrar-se-á nos Seus filhos e agradar-se-á
 dos Seus amados para sempre". (Test. Levi 18.13 e 4.2; Or. Sib.
 3.702; 3Mc 6.28; Pir. Ab. 3.19).

 b) A Lei

 A lei é eterna e da máxima importância para o homem. Nos jubileus
 dizia-se que todos os justos observaram a Lei, tal como os anjos
 do Céu, de tal sorte que a missão de Moisés no Sinai não era apresentá-la
 pela primeira vez, mas sim promulgá-la de novo. É a súmula da revelação
 divina. Para muitos judeus, a Lei (Torah) incluía a tradição
 oral, que se dizia ter origem em Moisés e se propagou graças aos
 profetas e aos homens da Grande Sinagoga. Esta tradição admitia
 uma infinidade de aplicações da Lei a todas as circunstâncias possíveis
 (o Mishnah) juntamente com outras explicações (o Gemara),
 formando ambos o Talmude, de que se conhecem duas coleções:
 a de Jerusalém e a da Babilônia. É bem conhecida a atitude de Jesus
 Cristo para com estas tradições, mas a observância delas é fundamental
 para muitos judeus ortodoxos. Tanto os rabis como os autores dos
 apocalipses, eram unanimes em concordar que a salvação só dependia
 da obediência aos preceitos da Lei.

 c) A Sabedoria

 Os atributos da Sabedoria, como os apresentam os #Pv 8.22-31,
 eram bastante divulgados nesta época, tanto mais que a filosofia
 grega já fazia sentir no judaísmo a sua influência. Uma das mais
 belas referências à Sabedoria encontra-se na Sabedoria de Salomão
 (7.22-8.1), onde se diz ser o "espírito do poder de Deus, a emanação
 do Altíssimo, a irradiação da luz eterna, o espelho imaculado da
 obra de Deus, a imagem da divindade benéfica".

 Ao mesmo tempo aumentou a especulação do conceito da "Palavra
 de Deus", desenvolvida sobretudo na Sabedoria 18.15-16: "Toda a
 Tua palavra poderosa saiu do trono real como um soldado valoroso,
 que, no meio da terra condenada, empunha a espada dos Teus mandamentos,
 fere de morte tudo o que encontra e, enquanto aponta o céu, o seu
 lugar é a terra". Trata-se duma alusão à mortandade dos primogênitos
 no Egito. No mesmo livro a "Palavra" é identificada com a "Sabedoria":
 "Ó Deus dos nossos antepassados, que pela palavra tudo criastes,
 e pela sabedoria formastes o homem..." (9.1-2).

 Em face desta doutrina, podemos chegar à conclusão de que Lei
 e Sabedoria são uma e a mesma coisa. Reconhece-mo-lo facilmente
 em todos os livros, em especial no Eclesiástico e no Pirke Aboth.
 É o caso de Ben Sira com a sua pormenorizada descrição da Sabedoria
 no capítulo 24, dizendo: "Tudo isto compõe o livro da aliança do
 Deus Altíssimo, a Lei que Moisés nos confiou..." (Eclesiástico
 24.23). O mesmo se passa com a Lei e a Palavra em Pir. Ab. 3.19:
 "Bem-aventurado é Israel, a quem foi confiado o instrumento que
 serviu para criar os mundos...". Quem se dedica ao estudo do Novo
 Testamento não deixará de reconhecer a importância destes conceitos,
 que serviram de fundo ao Quarto Evangelho. E assim a Sabedoria,
 a Palavra e a Lei dos judeus cumpriram-se, segundo João, em Jesus
 encarnado.

 d) O pecado

 Foi muito discutida a origem do pecado, tendo sido apresentadas
 várias soluções, em especial no que se refere ao grande desastre
 do Éden. Em alguns casos a culpa é atribuída a Eva (Eclesiástico
 25.24), em outros a Adão (2Ed 7.118), ainda noutros ao Demônio
 (Sabedoria 2.24), e finalmente aos Anjos Maus (1 Enoque 10.7-8).
 Por outro lado, o autor de 2 Baruque não concorda com a atribuição
 da culpa aos nossos antepassados: "Embora Adão fosse o primeiro
 a pecar, por ele a morte se transmitisse a todos os seus descendentes,
 cada um de nós preparou no seu íntimo tal acontecimento... Adão
 é, pois, apenas o responsável pelo seu pecado, enquanto cada um
 de nós responde pelo seu, por sermos cada um o seu Adão em espírito"
 (2 Baruque 54.15 e 19).

 Quanto à expiação por esse pecado, recorre-se aos sacrifícios,
 tal como no Velho Testamento. Mas não se dispensam as obras: "Aquele
 que honra o pai fará sacrifícios pelos pecados" (Eclesiástico 3.3);
 "A esmola livra da morte e purifica do pecado" (Tobias 12.9). É
 contra estas teorias que Paulo se insurge veementemente.

 Recorre-se, ainda, aos méritos dos santos (2Ed 8.28-29),
 e o martírio dos confessores fiéis pode vir a expiar os pecados
 (4Mc 6.28-29).

 e) A Moral

 A principal finalidade do homem é compreender e cumprir a Lei.
 Como disse um rabi: "Se praticares muito a Torah, não confies
 em ti, pois para isso foste criado" (Pir. Ab. 2.9). Numa época
 em que se considerava a Lei como a súmula da Revelação Divina,
 não admira que fosse geral essa maneira de pensar. Infelizmente,
 foram desastrosas as conseqüências desta doutrina da salvação pelas
 obras. É de ver como certo rabi chega a comparar Deus a um comerciante
 que dá crédito aos que guardam a Lei, e exige o pagamento das dívidas
 aos que não a guardam (Pir. Ab. 3.20). Há a frisar, todavia, um
 certo progresso relativamente à literatura moral do Velho Testamento.
 Várias vezes nos Testamentos dos doze patriarcas se faz a seguinte
 afirmação: "Ama o Senhor e o teu próximo" (por exemplo, no Test.
 de Issacar 5.2), antecipando-se assim à doutrina básica de Jesus.

 Sobre o perdão das ofensas leia-se no mesmo livro o Test. de
 Gade 6.3-7: "Amai-vos uns aos outros de coração; e se alguém pecar
 contra vós, falai-lhe brandamente, não guardando contra ele rancor,
 e perdoando-lhe, se se arrepender e se confessar. Se o não fizer,
 porém não vos exalteis nem blasfemeis, para não pecardes também.
 Nem o censureis, porque pode ainda vir a reconciliar-se convosco.
 E mesmo que seja persistente no erro, perdoai-lhe de coração e
 deixai a vingança nas mãos de Deus".

 Textos deste teor são tão semelhantes à doutrina de Jesus, que
 há quem avente a hipótese de que o divino Mestre tenha conhecimento
 desses Testamentos. Nada de concreto, todavia. As máximas que versavam
 temas de moral não eram privilégio deste ou daquele rabi, sobretudo
 numa época em que era corrente a pregação.

 f) A Escatologia

 É neste capítulo que mais se nota o desenvolvimento da doutrina
 da literatura apócrifa, em especial no que se refere à imortalidade
 pessoal, ao reino de Deus e ao Messias.

 1) A IMORTALIDADE PESSOAL. Segundo o que podemos apurar, foi
 sempre corrente entre os israelitas a crença na vida além-túmulo.
 Tratava-se duma existência vaga, onde teriam acesso as almas, mas
 sem esperança de gozar da amizade de Deus. O #Sl 88 é claro
 a este respeito, representando o Além como a "terra do esquecimento",
 zona de "trevas" onde os mortos não gozam da amizade de Deus, porque
 foram "excluídos da mão divina". Com tal conceito da outra vida,
 aquela existência não tem razão de ser: "Poupa-me, até que tome
 alento, antes que me vá, e não seja mais" (#Sl 39.13). Atingiu-se,
 porém, uma noção mais clara desta doutrina, quando os santos de
 Deus refletiram mais a fundo na sua amizade com Deus e na experiência
 que alcançaram acerca da vinda do reino de Deus. Jó acredita por
 isso que depois da morte verá vingada a sua inocência (#Jó 19.25-27)
 e o autor do #Sl 139.8 afirma que se "fizer a sua cama no Seol",
 ali encontrará Deus. Asafe no #Sl 73.24-25, referindo-se à
 amizade de Deus, deseja-a não só no outro mundo, mas também neste.
 Tal doutrina, porém, não era geral. O saduceu Bem Sira, por exemplo,
 escreveu: "Dez, cem, mil anos, nada são comparados com o Seol,
 onde não há esperança de vida" (Eclesiástico 41.4). Segundo este
 texto não restam dúvidas que após a morte Deus se esquece das almas.
 Foram os antepassados dos fariseus que desenvolveram a doutrina
 dos filhos mais espirituais de Israel. Compare-se a doutrina de
 Cristo com 4 Macabeus 7.18-19: "Todos aqueles que de coração fazem
 da justiça o seu primeiro pensamento estão aptos a dominar a fraqueza
 da carne, podendo crer que não morrerão em Deus, como os nossos
 patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, que não morreram mas viveram
 para Deus". Voltemo-nos agora para a opinião oposta expressa por
 um rabi no Pir. Ab. 4.21: "Este mundo é como um pórtico diante
 do outro mundo que há de vir. Preparemo-nos para ultrapassar esse
 pórtico e entrar na sala do festim".

 Tais são as teorias dos apocalipses largamente espalhadas entre
 os judeus, mesmo no tempo de Cristo.

 2) O REINO DE DEUS. No Velho Testamento é antecipado o Reino
 de Deus, passando a ser consumado nesta terra. É característica
 a famosa profecia messiânica de #Is 11.1-9. Os autores de apocalipses
 anteriores desenvolveram indefinidamente esses textos e conceberam
 narrações fantásticas. Em 1 Enoque 10.17 e segs. diz-se que os
 justos terão uma velhice feliz e gerarão milhares de filhos. As
 sementes produzirão mil por um, etc., etc. Recorde-se a descrição
 do milênio de Papias baseado nesta fonte.

 Em #Is 65.17-22 fala-se duma renovação do céu e da terra,
 mas não nos é indicado o sentido dessa renovação, quer sob o ponto
 de vista físico, quer moral. Alguns autores de apocalipses do século
 I A. C. e do século I da nossa era supõem que o reino messiânico,
 embora estabelecido na terra, é de pouca duração e dará lugar ao
 reino eterno dos céus.

 Em 2 Enoque diz-se que a história do mundo durará 7.000 anos,
 sendo os últimos mil o reino milenário, depois dos quais começará
 o reino eterno com uma nova criação (2 Enoque 32.2-33.2). Para
 este escritor é de grande importância o reino temporário. Mas em
 2 Esdras já é menor essa importância, devido ao pessimismo do autor
 a respeito deste mundo; por isso restringe-o a 400 anos, no fim
 dos quais o Messias e todos os seres vivos morrerão (2 Esdras 7.26
 e segs.).

 Em presença deste último desenvolvimento, não admira que alguns
 autores tivessem abandonado a idéia do reino temporário messiânico
 e pensassem apenas no reino eterno dos novos Céus. O autor de 2
 Baruque achou que esta terra era indigna do Reino de Deus: "O que
 agora existe nada é; o que há de vir, sim, é algo de grande valor.
 Porque tudo o que é corruptível terá um fim, e tudo o que morre
 desaparecerá, sendo esquecido todo o presente, de que não ficará
 qualquer lembrança, porque nele só há maldade" (2 Baruque 44 e
 segs.).

 Em qualquer teoria que venha a ser adotada e relacionada com
 a natureza do reino, a vinda deste reino é geralmente considerada
 "catastrófica", como no sonho de Nabucodonosor (#Dn 2). Em
 alguns livros, todavia, a idéia geral é de que o reino atingiria
 a sua plenitude gradualmente (cfr. Jub 33 e 2 Baruque 73-74). No
 livro dos Jubileus, por exemplo, o Reino é concebido em moldes
 que levam à conclusão que a sua plenitude aumentará à medida que
 se conhecer e cumprir a Lei.

 Do mesmo modo todos os autores de apocalipses esperam que o Rei
 apareça em breve, porque o fim está próximo. Em vários livros
 afirma-se mesmo que o grande dia será antecipado pelo arrependimento:
 "No dia em que Israel se arrepender, terá fim o reino do inimigo"
 (Test. Daniel 6.4). Por isso na Assunção de Moisés 1.18 o último
 dia é considerado "o dia do arrependimento, dia da visita do Senhor
 no fim dos tempos".

 Estes diferentes aspectos do Reino de Deus, como não podia deixar
 de ser, vieram afetar muito a teoria da imortalidade. Já que Deus
 pretendia estabelecer o Seu reinado, que abrangia não só a geração
 dos últimos dias mas também as de todos os tempos, veio a lume
 outra doutrina: a da ressurreição, já em vislumbre no Velho Testamento
 (cfr. #Is 26.19 e #Dn 12.2-3). Surgiram depois as modificações.
 Se a ressurreição antecipada é para um reino de glória terrestre,
 naturalmente o corpo da ressurreição é da mesma natureza que o
 corpo atual. É assim que lemos nos Or. Sib. 3.179-192: "Deus reunirá
 os ossos e as cinzas dos homens e pela ressurreição torná-los-á
 como dantes". Este fenômeno terá lugar no começo do reino; mas
 se se estivesse à espera do reino temporário, a ressurreição só
 poderia verificar-se no fim do mesmo. Tal é o caso do livro dos
 Segredos de Enoque, onde Deus diz a Adão que o levará da terra
 quando da "Sua segunda vinda" (32.1), isto é, ao cabo de 7.000
 anos de história do mundo. Este autor parece que supunha a ressurreição
 como sendo espiritual e não meramente material. Ouçamo-lo: "O Senhor
 disse a Miguel: -Vai e despe Enoque dos seus vestidos terrenos,
 unge-o com o meu óleo suave e impõe-lhe o vestuário da minha glória"
 (22.8). Assim o autor da Sabedoria de Salomão, que não aguardava
 a realização terrena do reino, ocasionalmente supunha a ressurreição
 logo a seguir à morte. Não se tratava, porém, de teoria normalmente
 aceita entre os judeus da Palestina.

 3) O MESSIAS. É curioso como alguns dos profetas do Velho Testamento
 não fazem qualquer alusão ao Messias (por exemplo, Amós, Sofonias,
 Naum, Habacuque, Joel). O mesmo sucede com alguns livros apócrifos,
 nomeadamente os 4 livros dos Macabeus, Judite, Tobias, 1 Baruque,
 Sabedoria, Assunção de Moisés e 2 Enoque. Segue-se na opinião de
 R. H. Charles, que nos livros proféticos e apocalípticos dos judeus,
 o Messias não era um fator fundamental no reino. Assim podia ser,
 embora não se admita em todos os casos mencionados que o silêncio
 dos autores supõe, necessariamente, que não esperem a vinda do
 Messias. A grande diferença entre a escatologia do Velho e do Novo
 Testamento é a relativa importância do Messias. Neste último, a
 escatologia anda inteiramente ligada à Pessoa e à obra de Cristo.

 Nos textos do Velho Testamento em que o Messias desempenha um
 papel preponderante no reino, Ele só entra em atividade depois
 deste estabelecido, pois nem sequer é Ele quem o inicia. O #Sl
 110.1 resume perfeitamente essa posição: "Disse o Senhor ao meu
 Senhor: Assenta-te à Minha mão direita, até que ponha os Teus inimigos
 por escabelo dos Teus pés". Assim, em muitos dos apocalipses o
 Messias não inicia a Sua atividade, enquanto o reino não estiver
 fundado. Apenas o livro de Enoque faz exceção a esta regra.

 Quanto à origem do Messias segue-se a doutrina geral do Velho
 Testamento, fazendo-O descender da casa de Davi. Só os Testamentos
 dos doze patriarcas afirmam que a salvação provém de Levi e de
 Judá, e não apenas de Judá. Muitos comentadores apóiam a primeira
 opinião, tal como o Test. Rúben 6.7-12. Se bem que no Test. Judá
 22 e 24 se insista em que o Messias nasce de Judá, os Testamentos
 dão a entender geralmente que a salvação vai surgir de Levi e Judá,
 e não apenas duma só tribo. A única interpretação satisfatória
 parece ser a que leva o autor a esperar dois Messias, e não um
 só. Baseia-se esta afirmação na narração pormenorizada das façanhas
 dos macabeus, que pertenciam à tribo de Levi, e também na importância
 ligada ao sacerdócio: "A mim deu-me o Senhor o reino e a ele (Levi)
 o sacerdócio, submetendo aquele a este... Assim como o céu é superior
 à terra, assim o sacerdócio de Deus é mais elevado que o domínio
 terrestre..." (Test. Judá 21.1 e segs.). A importância deste comentário,
 tão relacionado com o nascimento de Cristo, deve ter favorecido
 muito a pregação do Messias entre os judeus.

 Quem mais se afasta, porém, da doutrina tradicional sobre o Messias
 é o autor das Comparações de Enoque (1 Enoque 37-71). O Messias
 já não é uma simples figura humana; é um ser transcendente, preexistente
 e superior a todas as criaturas, que surgirá no fim dos tempos
 para estabelecer um reinado. Aqui pela primeira vez se ouve falar
 de Cristo, do Justo, do Eleito, do Filho do Homem (cfr. 1 Enoque
 52.4; 38.2; 45.3; 46.1-6), atributos tão freqüentes nos livros
 do Novo Testamento.

 Muitos foram os meios utilizados por Deus para preparar os caminhos
 do Senhor e atingir aquela "plenitude dos tempos" para a vinda
 do Seu Filho, conforme dizem as Escrituras. Neste sentido tais
 obras, referindo-se a esse Libertador, tiveram certa importância,
 porque contribuíram para explicar o grandioso plano de Deus.

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