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I. AUTORIA

O autor é desconhecido. Variadas têm sido as sugestões mas nenhuma se pode confirmar. Tem-se atribuído o livro a Jó, Eliú, Moisés, Salomão, Isaías, Ezequias, Baruque amigo de Jeremias, etc. Uma coisa porém é certa: o livro é da autoria de um judeu que, não obstante a sua lealdade ao judaísmo, se recusa a deixar-se manietar pela minúcia de certos aspectos do credo popular, em particular pela tradicional e desapiedada associação do sofrimento com o pecado.

II. DATA E PANORAMA

A data também está envolta em mistério. Não se fazem, no livro, quaisquer referências diretas a acontecimentos históricos que nos possam servir de ponto de referência para a atribuição de uma data à obra.

Necessário se torna estabelecer uma distinção entre a época do panorama histórico da obra, que encontramos no prólogo e no epílogo, e a do resto do livro. A primeira é, claramente, anterior ao exílio. A atmosfera é patriarcal. A riqueza avalia-se pelo gado que se possui e Jó aparece-nos como sacerdote de si próprio (#Jó 1.5). Em #Ez 14.14 faz-se uma referência a Jó. A base histórica seria preservada pela tradição, que a passaria de geração em geração até ser incorporada no livro de Jó acrescida da forma poética em que se enquadra o diálogo. Alguns afirmam que a tradição se manteve oralmente; outros aceitam a teoria segundo a qual o Prólogo e o Epílogo são fragmentos de um livro popular (Volksbuch) em que se relatava a história de Jó. É impossível determinar com exatidão a época em que a história de Jó foi incorporada no livro, tal qual o conhecemos. Certo comentador observa, com acuidade, que a atmosfera meditativa do livro e o conhecimento de terras distantes que nele se revela, excluem uma época anterior à de Salomão. Mantêm o mesmo comentador que é provável que a época seja a do cativeiro de Judá (597 A.C.). Mas outros investigadores atribuem-lhe uma data posterior -meados do séc. IV A.C. A questão da data não é, de resto, importante. Dois conhecidos autores dizem com razão: "Poucos poemas existem em toda a literatura cuja data e panorama histórico sejam de menos importância que no livro de Jó... É um poema universal, feição que o valoriza e atualiza nos nossos dias".

O livro apresenta interessantes pontos de contacto com outros livros da Escritura. Compare-se #Jó 3 com #Jr 20.14-18 e #Jó 15.35 com #Is 59.4. Há notáveis semelhanças entre Jó e o Servo do Senhor em Isaías. Cfr. #Is 50.6; #Is 53.3 com #Jó 16.10; #Jó 30.9 e segs. Veja-se também #Sl 8.4; (#Jó 7.17); #1Co 3.19 (#Jó 5.13); #Tg 5.11.

III. CONTEÚDO E VALOR

A história passa-se na "terra de Uz" que é provável que deva identificar-se com Edom-nome bem estigmatizado em outras Escrituras (#Sl 137.7; #Ml 1.2 e segs.). Nenhuma das personagens é israelita. Não pode deixar de nos ocorrer uma outra largueza de vistas que muitos séculos depois faria de um não-judeu o herói da parábola do Bom Samaritano.

Quatro amigos de Jó-Elifaz, Bildade, Zofar e Eliú-representam tudo que a teologia ortodoxa teria a dizer acerca do significado das calamidades que haviam arrasado a felicidade e a estabilidade de Jó. Com a possível exceção de Eliú, a sua contribuição é gravemente limitada por uma inexorável interpretação do sofrimento: o sofrimento como conseqüência do pecado pessoal. Se eles se tivessem limitado a estabelecer a solidariedade humana no pecado, Jó ter-lhe-ia dado a sua imediata aprovação, visto que ele jamais se considera um homem perfeito; mas ao ouvi-los insinuar e depois direta e claramente afirmar que o seu sofrimento era o inevitável fruto da semente do pecado que ele cometera e de que só Deus era testemunha, Jó nega veementemente e coerentemente a exatidão do seu juízo.

O livro de Jó é um livro universal porque se dirige a uma necessidade universal-a agonia do coração humano torturado pela angústia e pelas muitas aflições a que a carne é sujeita. Para o afirmar bastar-nos-ia o testemunho de uma mulher que, ao morrer de um cancro, declarava que o livro de Jó falava à sua alma como nenhum outro livro da Bíblia. Ao testemunho dos grandes sofredores se têm juntado as vozes de grandes cristãos e grandes poetas num coro de admiração pelas verdades que o livro transmite, por vezes, através da mais elevada poesia. Lutero afirmava que o livro de Jó era "magnífico e sublime como nenhum outro das Escrituras". Tennyson chamava-lhe "o maior poema de todos os tempos-antigos e modernos".

Qual é, então, a mensagem do livro, como se dirige ele à grande necessidade universal?

O livro denuncia, de maneira notável, a insuficiência dos horizontes humanos para uma compreensão adequada do problema do sofrimento. Todas as figuras do drama falam com o desconhecimento absoluto das alegações de Satanás contra a piedade de Jó, descritas no prólogo, e da conseqüente permissão divina-a permissão concedida a Satanás, de provar, se puder, a exatidão das suas acusações. Com o prólogo como pano de fundo, os sofrimentos de Jó aparecem, portanto, não como irrefutável prova de castigo divino, como pretendiam os amigos, mas como prova de confiança divina no seu caráter. Devemos evitar o uso de linguagem que possa fazer supor que um Deus onisciente necessitava de uma demonstração da integridade do Seu servo para pôr termo a uma pequena dúvida que surgira na Sua mente; mas podemos encontrar na história a sugestão daquela verdade de que "agora vemos por espelho, em enigma". Jó e os seus amigos tentavam resolver um problema para o qual lhes faltavam elementos; era como se procurassem formar a figura de um quebra-cabeça sem possuírem todas as peças. Conseqüentemente, o livro de Jó é um eloqüente comentário à insuficiência da mente humana para reduzir a complexidade do problema a fórmulas simples e acessíveis. É um livro em que o homem silencioso, o homem que se cala, realiza mais do que o que discorre e o que discursa. Cfr. #Jó 2.13; #Jó 13.5.

Mas o autor, que recomenda, sem dúvida, a humildade perante o sofrimento, jamais advoga o desespero. Ele crê num Deus que pode satisfazer a necessidade humana. O aparecimento dos homens que vêm aconselhar Jó conduz à controvérsia, à desilusão e ao desespero; a revelação de Deus promove a submissão, a fé e a coragem. A palavra do homem é impotente para penetrar a escuridão da mente de Jó; a palavra de Deus traz luz e luz eterna. O Deus da teofania não responde a nenhuma das questões tão calorosamente debatidas em todo o livro; mas satisfaz a necessidade do coração de Jó. Não explica cada fase da batalha; mas torna Jó mais do que vencedor nessa batalha. (Ver comentário detalhado no princípio do capítulo 40).

Como os restantes livros do Velho Testamento, Jó anuncia-nos Cristo. Surgem problemas e ouvem-se grandes soluços de agonia a que só Jesus pode responder. O livro toma o seu lugar no testemunho de todas as idades e de todos os tempos: no coração humano existe um vazio que só Jesus pode preencher.

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